Na parede da memória: o papel da cannabis no cuidado com o Alzheimer
- Yhago Shalys

- 21 de set. de 2025
- 2 min de leitura

Imagine uma biblioteca imensa, repleta de histórias únicas. Agora, pense no que acontece quando, pouco a pouco, as páginas começam a se apagar, deixando apenas espaços em branco onde antes havia lembranças, afetos e identidades. Essa é a realidade de quem vive com Alzheimer, uma doença que não apenas corrói a memória, mas desestrutura famílias inteiras, transformando o cotidiano em um campo de batalha silencioso.
Durante décadas, os tratamentos disponíveis se limitaram a retardar o inevitável, como quem tenta segurar água nas mãos. Mas, recentemente, uma nova possibilidade vem acendendo luzes no horizonte: a cannabis medicinal. Longe do estigma que por tanto tempo a envolveu, essa planta começa a revelar segredos que podem mudar a forma como cuidamos da mente que envelhece.
Pesquisadores descobriram que os canabinoides, substâncias presentes na cannabis, como o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), atuam no cérebro como maestros invisíveis. Eles modulam a sinfonia química que permite que os neurônios conversem entre si, equilibrando mensageiros fundamentais como dopamina, glutamato e acetilcolina. Em outras palavras, ajudam a organizar o caos interno que o Alzheimer provoca.
Os primeiros resultados são animadores. Estudos apontam que o CBD pode proteger as células nervosas, reduzir inflamações no cérebro e até favorecer a memória em estágios iniciais. Mais do que isso: em pacientes já diagnosticados, relatos indicam melhora no sono, redução da agitação e alívio de sintomas comportamentais que pesam tanto para quem vive a doença quanto para seus cuidadores.
Ainda não falamos em cura. A ciência caminha com cautela, é preciso entender as doses ideais, a forma de uso e os efeitos de longo prazo. Mas o que já se sabe abre uma fresta de esperança. Uma esperança que não é feita de promessas vazias, e sim da possibilidade real de devolver qualidade de vida, de suavizar o impacto de uma doença que hoje parece intransponível.
Talvez o Alzheimer continue a apagar páginas da biblioteca da memória. Mas, com a ajuda da cannabis medicinal, é possível que algumas histórias permaneçam legíveis por mais tempo na parede da memória. E, para aqueles que amam e cuidam, isso pode significar um universo inteiro.
Diretor de Acolhimento do Instituto Ahô




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